Arquivos Mensais: Junho 2008

Não podemos esperar. Serralves estás prestes a inaugurar uma exposição dedicada a Manoel de Oliveira, por ocasião da comemoração dos 100 anos do realizador.

Eis a descrição no site de Serralves:

MANOEL DE OLIVEIRA

12 Jul – 02 Nov 2008 – MUSEU

Esta primeira mostra do trabalho do cineasta no formato expositivo centrar-se-á no modo como Manoel de Oliveira reinventou o cinema através de uma linguagem que lhe é única. Paralelamente está programado um ciclo de cinema, onde serão exibidos no Auditório do Museu de Serralves todos os filmes que Manoel de Oliveira realizou até ao momento.

Comissariado: João Bénard da Costa / João Fernandes
Produção: Fundação de Serralves

Speed Racer
o segredo da família
(artigo publicado na edição de Quinta-Feira de «O Primeiro de Janeiro»)

O cinema de imagem real mais infantil de Hollywood sempre foi um cinema muito conformado e conservador, de forma a que estes filmes se tornem os filmes de Domingo à tarde nas televisões generalistas. Aqui em Portugal, esse tipo de filmes é de reconhecimento óbvio, já que os Domingos em família têm obrigatoriamente que passar estas histórias. Ver estes filmes em cinema é, por isso, um exercício penoso, já que as narrativas são amontoados de clichés e estereótipos de como viver em sociedade. Um dos exemplos mais claros deste tipo de cinema estreia hoje nas salas portuguesas e promete ser um dos blockbusters do Verão: trata-se de «Speed Racer», um filme adaptado da série homónima de televisão, realizado pela dupla dos irmãos Wachowsk, os mesmos que foram responsáveis pela trilogia «Matrix».

A narrativa do filme assegura que os objectivos são alcançados: Speed Racer é um corredor jovem, que ainda corre com um carro (o Mach 5) desenhado e construído pelo pai. O negócio, por isso, mantém-se na família. Contudo, a família ainda vive com um choque: a morte do irmão de Speed (Rex Racer), há muitos anos atrás, quando conduzia o seu carro. Speed já se mostra tão rápido como o irmão e, por isso, é aliciado pelas Royalton Industries, uma grande empresa que produz carros e representa corredores. Contudo, Speed quer manter o negócio da família e rejeita a proposta, enfurecendo o dono da empresa. Ao mesmo tempo, a autoridade do Desporto propõe a Speed correr uma mítica corrida (The Crucible) com o propósito de desmascarar as ilegalidades cometidas pela Royalton. Speed irá mostrar que é um piloto fantástico e irá conhecer o Racer X, um estranho corredor que se esconde atrás de uma máscara e que também é um agente da Autoridade do Desporto.

Na verdade, apesar de haver uma tentativa para organizar uma história, «Speed Racer» organiza-se de outra forma: em três grandes corridas distintas (uma no início, outra no meio e uma última no fim. Mas a única ideia que o filme pretende passar é a de que a família é o mais importante, custe o que custar. Nesse sentido, o filme é feito de um paradoxo constante: se, por um lado, há um clara divisão entre bons e maus (aqui personificados pela família/os bons; e as grandes empresas/os maus); por outro lado, «Speed Racer» é feito por uma grande empresa com o único propósito de fazer dinheiro. Nesse sentido, a constante moralidade do filme, colocada sobre o ponto de vista de uma óbvia divisão entre os heróis e os vilões, é questionada sob a forma como é produzida, promovida e vendida aos espectadores. Nada mais paradigmático de uma certa forma de actuação das grandes empresas.

Por isso, é que «Speed Racer» é um vulgaríssimo filme de Domingo à tarde, feito para encher as salas de cinema durante um mês, mas para depois cair no esquecimento. É, pois, um filme infantil, para audiência juvenis e sem quaisquer propósitos de questionamento. Nesse sentido, a moralidade pretende prolongar o “status-quo” da família, o que, em si, é um próprio paradoxo, já que a família Racer é tudo menos uma família equilibrada. Muitas vezes, este álibi da família parece-se com “O Segredo”, esse fenómeno de descoberta da felicidade que, no último ano, tem inundado o mercado cultural. É como se «Speed Racer» prolongasse as ideias substanciais dessa filosofia, a saber: afinal de contas, basta apenas “visualizar” o desejo para o conseguir. Tal como as corridas de Speed, sempre constantes jogos de ilusões sobre os veículos que correm desvairadamente.

Provavelmente, muitos falarão dos “efeitos especiais”, razão máxima para a presença dos irmãos Wachowski no filme. Mas esse é um engano puro. Sim, há muitos efeitos e muito bem feitos, mas esse molde serve apenas para contar a mesma história de sempre. Que desilusão é ver este “cinema”…

«Speed Racer» («Speed Racer»). Um filme de Andy Wachowski e Larry Wachowski, com Christina Ricci, John Goodman, Susan Sarandon e Matthew Fox. Estados Unidos, 2008, Cores, 135 min
Site Oficial: http://speedracerthemovie.warnerbros.com/

No Curso de Cinema da Universidade da Beira Interior, os alunos finalistas de Licenciatura tiveram que realizar uma curta-metragem como projecto final.

Estas curtas, tiveram que ser feitas em grupo (+/- 6 pessoas) com divisão de cargos, como Realizador, guionistas, Director de Fotografia, etc. Não podem ultrapassar os 15 min de duração (incluindo o genérico final e inicial). As filmagens só duraram uma semana entre o final de Abril e o princípio de Maio, com excepções em certos casos. Para a pós-produção, tiveram várias semanas, tendo que entregar o produto final até ao dia 27 de Junho.

Aqui deixo-vos alguns sites/blogs de algumas curtas e espero actualizar-vos com mais novidades dentro de breve.

www.inabsentiafilme.com/

www.dealtoecoracao.blogspot.com/

www.alguemmetroque.factor45.org

www.protardo.blogspot.com

O Meu Irmão é Filho Único

o espírito do tempo
(crítica publicada na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)

O cinema italiano é algo bastante obscuro no actual panorama da exibição internacional. Tirando o caso óbvio de Nanni Moretti (que consegue, de facto, que os seus filmes sejam vistos em muitos locais) e de um ou outro exemplo de um inverosímil sucesso (como foi «A Melhor Juventude»), são raríssimos os filmes italianos que chegam até cá. Estreia hoje, contudo, nos nossos cinemas, um novo sucesso internacional italiano: «O Meu Irmão é Filho Único», do realizador Daniele Luchetti. O filme venceu alguns dos Donatellos, os maiores prémios da indústria cinematográfica italiana e esteve presente na secção «Un Certain Règard» do Festival de Cannes. De certa forma, o filme segue algumas das ideias feitas sobre cinema italiano: actores disponíveis, uma história “histórica”, e uma fluência narrativa clara. Como curiosidade, vale a pena lembrar que os guionistas deste filme são os mesmos autores do guião de «A Melhor Juventude».

A narrativa do filme segue a história de uma família numa pequena cidade italiana dos anos 60. Na verdade, o filme concentra-se em Accio, um irrequieto miúdo que cresce na percepção de que ninguém quer saber dele. Na fase da adolescência tardia, Accio inscreve-se mesmo num partido fascista, o que vai em confronto com a tendência comunista da família: Manrico, o seu irmão mais velho, já milita no PC italiano e lidera os movimentos contra a exploração dos trabalhadores fabris. Entretanto, os dois crescem num ambiente de mútua confrontação. Para além disso, Manrico é mulherengo e bonito e Accio não parece ter nenhuma amizade, para além do partido. Manrico namora com Amélia (com quem terá um filho), de quem Accio também gosta. Com o crescimento de Accio, este torna-se menos vulnerável, chegando a romper com o partido fascista. Será neste contexto, portanto, que o filme se coloca: as personagens confrontam-se com o seu tempo e este deixa-lhes marcas evidentes.

«O Meu Irmão é Filho Único» tem características óbvias de filme histórico: isto é, coloca-se num tempo bastante icónico e faz com que as personagens se movimentem dentro dele. Contudo, aquilo que o filme faz melhor é transformar as personagens em pessoas verdadeiras, que têm complexidade e contradições. Essa mais valia (que, é certo, se torna óbvia no tempo histórico do filme) faz com que se acredite mais nestas personagens, porque não são previsíveis. Para além disso, o filme tem uma narrativa serena, que apenas explode no final, quando Manrico é assassinado. Nesta forma, conseguimos perceber melhor as nuances da época, de ver a maneira como todos viviam acima das expectativas, criando, a todo o custo, acontecimentos para fazer vincar o ponto de vista (como os fascistas fazem ao queimar os carros dos comunistas). Talvez esteja clareza narrativa a crítica do próprio filme, já que as elipses que o filme constrói a partir da segunda metade fazem com que seja menos complexo aquilo que se passa com as personagens.

Contudo, o ponto de vista cinematográfico do realizador obriga a câmara a aproximar-se das personagens, optando por um movimento livre, que deixa os actores improvisarem, mostrando, assim, os sentimentos voláteis. Esse lado “à flor da pele” é o que faz o espectador aderir a «O Meu Irmão é Filho Único», algo que é muito ajudado pela banda sonora: sucessos italianos da época, que, à distância, parecem verdadeiros sinais dos tempos. É claro que o filme acaba por ser um filme datado, mas a convulsão dos anos 60 e 70 também permite ver as personagens e sentir nelas que esse espírito do tempo é só uma forma de as personagens viverem. Por outro lado, os sentimentos serão sempre iguais, apenas com desafios exteriores diferentes. É nesta amálgama que «O Meu Irmão é Filho Único» tem as suas principais qualidades.

«O Meu Irmão é Filho Único» («Mio Fratello è Figlio Unico»). Um filme de Daniele Luchetti, com Elio Germano, Riccardo Scamarcio e Angela Finocchiaro. França/Itália, 2008, Cores, 108 min.
Site Oficial: http://www.mybrotherfilm.co.uk/

 

É sempre com um grande entusiasmo que leio os e-mails dos meus queridos amigos Phelps, de São Francisco, e que actualmente estão a viver em Gent, Bélgica. Estão constantemente a enviar-me novidades sobre as suas andanças, principalmente sobre as aventuras que passam nos festivais de cinema de animação. Posso dizer que este casal norte-americano não falta a uma edição do KROK Festival, em Kiev, na Ucrânia. E sempre falam maravilhas daquele barco ambulante que alberga os mais tresloucados animadores da nossa geração.

Bem, mas a boa notícia que soube nesta semana não foi acerca do KROK, mas sim do festival de Annecy, reconhecido como o mais importante festival de animação do mundo. Nina Paley, uma veterana do cinema de animação independente e amiga de longa data deste casal, recebeu o Cristal para a Melhor Longa-Metragem de Animação, com o seu mais recente «Sita Sings the Blues». É de salientar que outro motivo de tanta satisfação é o facto de que Nik Phelps compôs e tocou alguns temas para este filme.

«Sita Sings the Blues» foi realizado, produzido, escrito, animado e graficamente criado por Nina Palley e demorou 5 anos a ser feito.

Outra boa novidade é que Bill Plympton regressou ao ataque, e recebeu o Prémio de Distinção Especial, com a sua nova longa-metragem «Idiots & Angels»

O juri de longa-metragem foi composto por Matt Groening, Ram Mohan e Barry Purves.

 

 

Alexandre Siqueira