
um pouco mais do mesmo…
(texto publicado na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»
Há cerca de dez anos atrás, uma estação de cabo americana dava os primeiros passos para a transformação radical do panorama televisivo. Tratava-se da HBO e produzia, por aqueles tempos, séries como «Sete Palmos de Terra» (2001) ou «Os Sopranos» (1999). Desses marcos transformadores da linguagem televisiva, apareceu também «Sexo e a Cidade» (aliás, previamente às anteriores, em 1998). No conjunto, estas três séries (e outras que lhes seguiram) traziam uma nova abordagem temática e cinematográfica à forma como se fazem as séries de televisão. É na consequência óbvia do sucesso de «Sexo e a Cidade» que surge, nas nossas salas, o mais do que esperado filme a partir da série, com o título homónimo. Depois de algumas complicações (sobretudo devido às negociações com Kim Cattral/Samantha, que protelou o filme durante três anos), o criador e realizador da série, Michael Patrick King, consegue assinar a realização do filme. Na verdade, como muitos esperarão, a película segue fielmente a lógica da série, agora encurtada para “caber” no filme de duas horas.
A narrativa – mais uma vez iniciada e contada pela voz de Carrie – apanha as quatro protagonistas num patamar diferente da vida: todas elas estão agora apaixonadas e a viver com os seus respectivos homens. Por um lado, Charlotte e Miranda casaram e tiveram filhos (a de Charlotte é adoptada); por outro, Samantha vive agora em Los Angeles com um actor de Hollywood (sendo a sua agente). Finalmente, Carrie juntou-se com Mr. Big, o eterno e adiado amor da série de televisão. Na verdade, o filme começa com a sua decisão em se casar. Contudo, Mr. Big/John acaba por deixar Carrie pendurada no dia de casamento. É a oportunidade para o filme dar um longo tempo para a recuperação emocional de Carrie e a respectiva reconciliação com Mr. Big. Durante esse tempo, veremos as voltas que as vidas das suas três amigas dão.
Como se pode ver pela sinopse linear, «Sexo e a Cidade» acaba por ser estruturado como um típica comédia romântica. Contudo, a forma mais “dramática” como o filme é colocado acaba por desfavorecê-lo, já que se torna demasiado previsível. Nesse sentido, tudo se encaminha para a resolução (com mais ou menos tempo para “recolocar” as personagens na rota das outras), algo que é dramaticamente castrador de alguma ambivalência que a série de televisão produzia. A série, no advento no século XXI, apostava naquelas quatro personagens como representantes de uma certa cultura urbana nova-iorquina, com as suas formas múltiplas de relacionamentos. O filme, contudo, com o argumento de que as personagens “estão mais velhas” torna-as mais previsíveis e, por isso, menos interessantes. Não é que seja menos “realista”, mas é bem menos problemático. E sem um “bom problema” o filme também perde.
Ainda assim, todo o look da série se mantém, com as cores bem atraentes dos vestidos mais improváveis que as quatro mulheres vestem. Nesse sentido, este «Sexo e a Cidade» continua óptimo, com uma panóplia de guarda roupa impressionante e nunca deixando as personagens vestir roupas “menores”. Sente-se também que esta é uma versão mais «light» da série – talvez para ficar conforme uma faixa etária mais comercial – abdicando de algumas cenas mais «picantes», que, mesmo assim, ainda aparecem. Em conclusão, como o formato de comédia romântica não é alterado, o filme fica bem menos interessante. Sobretudo por isso, soa a uma oportunidade perdida para poder rever a confusão sentimental que a série convocava.
«Sexo e a Cidade» («Sex and the City»). Um filme de Michael Patrick King, com Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis e Cynthia Nixon. Estados Unidos, 2008, Cores, 148 min.
Site Oficial: http://www.sexandthecitymovie.com/
Daniel Ribas