
o espírito do tempo
(crítica publicada na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)
O cinema italiano é algo bastante obscuro no actual panorama da exibição internacional. Tirando o caso óbvio de Nanni Moretti (que consegue, de facto, que os seus filmes sejam vistos em muitos locais) e de um ou outro exemplo de um inverosímil sucesso (como foi «A Melhor Juventude»), são raríssimos os filmes italianos que chegam até cá. Estreia hoje, contudo, nos nossos cinemas, um novo sucesso internacional italiano: «O Meu Irmão é Filho Único», do realizador Daniele Luchetti. O filme venceu alguns dos Donatellos, os maiores prémios da indústria cinematográfica italiana e esteve presente na secção «Un Certain Règard» do Festival de Cannes. De certa forma, o filme segue algumas das ideias feitas sobre cinema italiano: actores disponíveis, uma história “histórica”, e uma fluência narrativa clara. Como curiosidade, vale a pena lembrar que os guionistas deste filme são os mesmos autores do guião de «A Melhor Juventude».
A narrativa do filme segue a história de uma família numa pequena cidade italiana dos anos 60. Na verdade, o filme concentra-se em Accio, um irrequieto miúdo que cresce na percepção de que ninguém quer saber dele. Na fase da adolescência tardia, Accio inscreve-se mesmo num partido fascista, o que vai em confronto com a tendência comunista da família: Manrico, o seu irmão mais velho, já milita no PC italiano e lidera os movimentos contra a exploração dos trabalhadores fabris. Entretanto, os dois crescem num ambiente de mútua confrontação. Para além disso, Manrico é mulherengo e bonito e Accio não parece ter nenhuma amizade, para além do partido. Manrico namora com Amélia (com quem terá um filho), de quem Accio também gosta. Com o crescimento de Accio, este torna-se menos vulnerável, chegando a romper com o partido fascista. Será neste contexto, portanto, que o filme se coloca: as personagens confrontam-se com o seu tempo e este deixa-lhes marcas evidentes.
«O Meu Irmão é Filho Único» tem características óbvias de filme histórico: isto é, coloca-se num tempo bastante icónico e faz com que as personagens se movimentem dentro dele. Contudo, aquilo que o filme faz melhor é transformar as personagens em pessoas verdadeiras, que têm complexidade e contradições. Essa mais valia (que, é certo, se torna óbvia no tempo histórico do filme) faz com que se acredite mais nestas personagens, porque não são previsíveis. Para além disso, o filme tem uma narrativa serena, que apenas explode no final, quando Manrico é assassinado. Nesta forma, conseguimos perceber melhor as nuances da época, de ver a maneira como todos viviam acima das expectativas, criando, a todo o custo, acontecimentos para fazer vincar o ponto de vista (como os fascistas fazem ao queimar os carros dos comunistas). Talvez esteja clareza narrativa a crítica do próprio filme, já que as elipses que o filme constrói a partir da segunda metade fazem com que seja menos complexo aquilo que se passa com as personagens.
Contudo, o ponto de vista cinematográfico do realizador obriga a câmara a aproximar-se das personagens, optando por um movimento livre, que deixa os actores improvisarem, mostrando, assim, os sentimentos voláteis. Esse lado “à flor da pele” é o que faz o espectador aderir a «O Meu Irmão é Filho Único», algo que é muito ajudado pela banda sonora: sucessos italianos da época, que, à distância, parecem verdadeiros sinais dos tempos. É claro que o filme acaba por ser um filme datado, mas a convulsão dos anos 60 e 70 também permite ver as personagens e sentir nelas que esse espírito do tempo é só uma forma de as personagens viverem. Por outro lado, os sentimentos serão sempre iguais, apenas com desafios exteriores diferentes. É nesta amálgama que «O Meu Irmão é Filho Único» tem as suas principais qualidades.
«O Meu Irmão é Filho Único» («Mio Fratello è Figlio Unico»). Um filme de Daniele Luchetti, com Elio Germano, Riccardo Scamarcio e Angela Finocchiaro. França/Itália, 2008, Cores, 108 min.
Site Oficial: http://www.mybrotherfilm.co.uk/