
o pó da guerra
(texto publicado na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)
Em 1997, saí do cinema extasiado (ainda me lembro: foi na sala de cinema que eu mais gostava, o Nun’Álvares). Acabara de ver a descoberta de um grande filme, que era, ao mesmo tempo, a descoberta de um autor. Era uma espécie de lição poética do cinema, algo que, mais tarde, percebi ser de longa tradição no cinema russo (era, portanto, um filme filiado nessa tradição). Tratava-se do maior sucesso, à data, do realizador Aleksandr Sokurov e o filme era o magistral «Mãe e Filho». Depois, o realizador tornou-se mais presente nas salas portuguesas, assinando uns filmes tão bons e outros menores. Mais tarde, Sokurov voltou com outro filme-limite: «A Arca Russa», filme-acontecimento filmado num único plano-sequência no Museu Hermitage. Contudo, esse filme nunca chegou a ter uma verdadeira estreia comercial em Portugal (apenas passagens pontuais em ciclos especiais). Foi com este historial que voltei ao seu cinema, agora com a estreia do seu último filme, «Alexandra», que chega a Portugal com mais de um ano de atraso (esteve presente na edição de 2007 de Cannes).
«Alexandra» é um pequeno filme de Sokurov, que segue, na sua narrativa, a viagem de Alexandra, uma velha senhora russa, que visita o seu neto num campo militar na Chechénia. Alexandra viaja com os soldados num comboio militar e, já no campo, visita atentamente todos os seus lugares mais escondidos, onde descobrirá a forma pouco higiénica com que os soldados vivem. O seu neto mostrar-lhe-á alguns desses locais, nos tempos mortos em que não está em serviço. Mas Alexandra terá também tempo para visitar o mercado da aldeia mais próxima e privar, ao nível dos olhares, com os seus habitantes. É, pois, na descoberta desse mundo novo que o filme se coloca perante o olhar de uma velha anciã russa.
Não há dúvida que o filme tens as marcas mais evidentes do cinema de Sokurov: uma atenção visual pelo real, pelas cores e pelos cheiros que se sentem naquele microcosmos de guerra. Nesse sentido, mais uma vez, este parece ser um filme antropológico, num sentido muito humanista: o que interessa ao realizador é que as personagens sejam verídicas, que sintam o cansaço nas pernas e o calor que o filme transparece. Nesse sentido, as personagens de Sokurov são um espelho para o espectador, que deve sentir essa latência que salta da película. Apesar disso, o filme é bastante diferente de «Mãe e Filho», sobretudo na sua ligação com o real. Em «Alexandra» tudo converge para a situação política, mesmo que apenas subtilmente, ao nível dos diálogos, isso seja aludido (já que visualmente será demasiado óbvia a destruição que veremos na aldeia).
Nesse sentido, vale a pena recordar que o filme foi rodado na própria Chechénia (ao contrário da maior parte dos filmes que abordam o conflito, que filmam em lugares visualmente semelhantes), sob dificuldades logísticas. Para além disso, a protagonista, Alexandra, é interpretada por um diva da Ópera Russa, Galina Vishnevskaya. Algo que só pode ser marcante, em todo o contexto narrativo do filme: uma avó que visita o seu neto perto do local de guerra e nota nele um mudança de atitude, uma única propensão para a guerra, ele que já não sabe quantas pessoas matou.
Enfim, Sokurov volta em «Alexandra» a dar um tom poético, mas aqui esse tom é, sobretudo, encontrado no próprio ritmo narrativo. Neste filme, a tonalidade visual é, por outro lado, bastante realista, dando a ver o pó e a areia que anda sempre no ar, contaminado os corpos nus dos soldados. Há, por isso, uma consciência clara de que a guerra interminável da Chechénia é ainda um indício de vergonha para o governo russo e para a consciência mundial. Ao seu estilo, Sokurov mostra-nos as marcas e as rugas que essa guerra já causou. No lado checheno, mas também no lado dos soldados russos. Porque a guerra altera sempre todos os que estão envolvidos nela.
«Alexandra» («Aleksandra»). Um filme de Aleksandr Sokurov, com Galina Vishnevskaya, Vasily Shevtsov e Raisa Gichaeva. França/Rússia, 2007, Cores, 90 min.
Site Oficial: http://www.sokurov.spb.ru/