
o bom, o mau e o vilão
(artigo publicado na edição de Quinta de «O Primeiro de Janeiro»)
Esta semana Portugal assiste a uma das mais esperadas estreias do Verão: o novo filme da série Batman, desta vez sem o nome do herói no título: «O Cavaleiro das Trevas». O filme é assinado pelo realizador Cristopher Nolan, um autor de dois filmes de êxito no início do século: «Memento» e «Insomnia». Na verdade, Nolan traz para este Batman uma visão pessimista e escura das relações humanas e, nesse sentido, subverte o conceito de herói. Mais do que actual nos tempos de hoje. Para além disso, o filme fica marcado como o último trabalho de Heath Ledger, o actor de «Brockenback Mountain» que acabaria por cometer suicídio no início de 2008. Mais uma razão para o filme se tornar um objecto de culto. Por um lado, o filme merece um visionamento cuidado e, por outro, revela um argumento demasiado labiríntico.
A narrativa do filme inicia com mais uma guerra contra o crime: o Batman volta a ajudar a polícia e o seu amigo Gordon. Contudo, apesar do sucesso que a operação parece conseguir, um novo personagem se introduz estragando o esquema da lei: o Joker. Com os seus mirabolantes e imprevistos esquemas, o Joker consegue ludibriar todos e, dessa forma, espalha o terror por Gotham City. Muitas mortes depois, o Batman inicia uma caça ao homem, mas, com demasiadas reviravoltas, o que consegue fazer é provocar a morte da sua paixão de sempre, Rachel, que agora era companheira de Harvey Dent, um procurador determinado que também acaba por sucumbir à loucura quando Rachel morre.
Como se vê pela narrativa, «O Cavaleiro das Trevas» é um labiríntico enredo de voltas e reviravoltas, com sucessivas formas de “eu-planeei-este-contrataque-depois-de-ti”. Nesse sentido, o filme perde-se e faz esmorecer a eventual ansiedade pelo rumo da narrativa. Porque, na verdade, o filme acaba por ter diversos pontos de interesse, a começar pelo momento de graça de Heath Ledger como Joker: um verdadeiro personagem do mal, um lunático doente psiquiátrico que não tem referências morais e que leva ao desespero Batman e a polícia, porque não conseguem prever o que vai acontecer.
É talvez esse o ponto de partida para o lado mais pessimista do filme, a saber: Batman descobre que será impossível erradicar o crime e Joker consegue fazê-lo debater com uma pergunta moral: devo ou não transgredir as regras? Por isso, Batman acaba por ser visto como um playboy à procura de conquistar a mulher que ama e que não sabe se deve ou não parar com a sua actividade. Talvez se o filme se conseguisse concentrar neste debate, pudesse ser mais conciso e determinante. Assim sendo, «O Cavaleiro das Trevas» constrói uma teia complexa de personagens que se vão sobrepondo umas às outras. É pena, porque Nolan parecia ter construído uma face mais humana para este cavaleiro agora menos herói e mais indeciso. Mas agora só resta esperar pela próxima sequela.
«O Cavaleiro das Trevas» («The Dark Night»), um filme de Christopher Nolan, com Christian Bale, Michael Caine, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Gary Oldman e Morgan Freeman. Estados Unidos, 2008, Cores, 125 min.
Site Oficial: http://ocavaleirodastrevas.com.pt/
