Arquivos Diários: Julho 7th, 2008

Brincadeiras Perigosas
as aventuras de tom & jerry
(publicado na edição de Quinta-Feira do jornal «O Primeiro de Janeiro»)

Em 1998, Gus Van Sant, um ano depois do seu sucesso mais comercial («Good Will Hunting/O Bom Rebelde»), realizava uma das suas experiências cinematográficas: «Psico», um remake – planor por plano – da obra-prima de Hitchcock, agora com outros actores. O filme foi recebecido com um misto de admiração e desilusão, já que se questionava a actualidade de um remake igual (ou quase-igual) ao título original. É também com surpresa que se vê o filme que hoje estreia nas salas: «Brincadeiras Perigosas», do austríaco Michael Haneke. Na verdade, o filme é um remake do título homónimo (e filme de culto) realizado pelo próprio Haneke em 1997, com actores alemães e falado em alemão. Alguém terá feito ver a Haneke que o filme poderia ter um sucesso forte nos Estados Unidos, se o casting fosse americano e falado em inglês. Tal serviu para Haneke avançar para uma aventura arriscada: filmar, de novo, o seu filme, plano-por-plano, agora com actores americanos. O filme é, mesmo, uma aventura de terror “realista”, e, para quem, como nós, não viu o original, é um soco no estômago.

A narrativa de «Brincadeiras Perigosas» inicia com um travelling sobre um jipe topo de gama. Dentro dele vai uma família feliz: George, o pai; Anna, a mãe; e Georgie, o filho. Eles vão passar férias para a sua casa de campo, uma mansão enorme junto a um lago paradisíaco. Percebe-se que haverá um jogo de golfe e que os vizinhos são velhos conhecidos da família. Contudo, nessa mesma tarde, a família recebe a visita do desconhecido Peter que, sob o pretexto de pedir ovos para a sua vizinha, se introduz na casa. Mais tarde também chega Paul e os dois não demorarão a fazer entender à família ao que vêm: fazem uma aposta com eles que até às 9h00 da manhã do dia seguinte eles estarão mortos. Assim, os dois rapazes, vestidos com impecáveis fatos de golfe (calções, camisola, meias e luvas brancas), jogarão com a família aterrorizada, jogos de terror, matando os três um-por-um, com pormenores sádicos, mas sempre com uma postura “polite”.

Não há dúvida que Haneke pretende com «Brincadeiras Perigosas» fazer um statment sobre o estado da loucura colectiva em relação ao espectáculo de entretenimento televisivo e cinematográfico que glorifica a violência. É por isso que o filme obdece a uma lógica pura de uma violência controlada, mesmo que seja aterradora. Nesse sentido, a narrativa acaba por ser brutal, deixando-nos estupefactos para com a aparente secura com que os assassinos continuam os seus jogos. Na verdade, Haneke segue de perto os códigos dos filmes de terror, mas apenas apararentemente: por exemplo, nunca há “acção” no sentido em que os filmes de terror entendem as sequências de perseguição. Há, por outro lado, uma lentidão cinematográfica que permite, como acontece, uma sequência de um só plano com cerca de 10 minutos (quando, no fim da primeira parte do filme, Paul e Peter saem de casa e deixam Anna e George ainda vivos).

É significativo que Paul e Peter se chamem, mutuamente, Tom e Jerry a certa altura do filme: é mesmo essa cultura de uma (aparente) violência cândida que o filme crítica. Daí que, também significativamente, Paul olhe , diversas vezes, directamente para a câmara e interpele o espectador, perguntando se quer que o espectáculo continue ou quem deve morrer de seguida. Há uma nítida consciência de crítica, de filme empenhado. Ao mesmo tempo, Haneke eleva, quase ao nível do insustentável, a forma como os actores têm que interpretar as suas personagens, algo que terá comparação com alguns dos seus filmes, de que é exemplo notável «A Pianista», com Isabelle Huppert. Este exercício acaba por nos devolver a questão, obrigando-nos a olhar para nós próprios.

Entre 1997 e 2008 há dez anos, mas isso não parece ser tão importante. Desse ponto de vista, o filme ainda faz sentido. Já a troca de actores e “repetição” do filme é mais contestável, já que o filme parece obrigar-se às regras que também combate, já que a violência, na maior parte das vezes, se faz à custa do espectáculo que «Brincadeiras Perigosas» critica (e a razão de ser para a existência do filme é a de “agradar” a uma plateia novo). Nesse sentido, ecoa a questão: será que valeu a pena, em 2007, voltar a rodar um filme igualzinho ao de 1997?

«Brincadeiras Perigosas» («Funny Games U.S.»). Um filme de Michel Haneke, com Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt e Brady Corbett. Estados Unidos, 2007, Cores, 113 min
Site Oficial: http://wip.warnerbros.com/funnygames/