
Os Primeiros Dias da Festa
Nos primeiros dias de Vila do Conde, os dias começam a tornar-se longos: muitos filmes, sessões atrás das outras à procura das novidades e das surpresas. O cansaço até toma conta de nós, mas uma vontade cinéfila faz-nos manter acordados até noite dentro. A primeira reacção a estes visionamentos é a da descoberta de novos autores asiáticos e algumas curtas que vão enchendo as medidas. Ainda não houve um fascínio especial, mas ainda falta muito festival para o Curtas acabar.
A primeira grande descoberta deu-se na secção In Progress com a exibição, em ante-estreia nacional, da segunda longa-metragem de Miguel Gomes: «Aquele Querido Mês de Agosto». O realizador é uma espécie de filho do Curtas, já que várias das suas curtas-metragens foram exibidas e premiadas no festival. Esta segunda incursão no formato longo revela um autor capaz de se reinventar. Ao contrário de «A Cara Que Mereces», filme demasiado feito para dentro, «Aquele Querido Mês de Agosto» é luminoso, ao cruzar o documentário (a primeira parte do filme), com a ficção (a segunda e última parte). Este cruzamento de linguagens permite ao filme entrar no âmago da cultura popular portuguesa, um mundo de bandas de “música ligeira”. Uma revelação.
Na terça-feira, o festival conheceu a obra de dois realizadores asiáticos, cuja obra tem conhecido uma crescente divulgação nos circuitos internacionais. O primeiro deles faz parte da secção In Focus: Yu Lik-wai. Foi apresentada uma das suas longas-metragens, «All Tomorrow’s Parties». O filme é uma incursão pela ficção científica, num mundo pós-apocalíptico, onde sobram várias referências políticas e culturais. Há uma noção clara de situação limite, colocando as personagens num mundo sem referências morais. O choque é brutal. Na secção In Progress, foi possível ver uma longa-metragem, «Help Me Eros» de Lee Kang-Cheng, o actor fétiche do realizador Tsai Ming Liang. Na verdade, as referências ao seu mentor são mais do que explícitas, através da construção de uma narrativa lenta, acompanhando a degração física de um corretor de bolsa na falência e com tendências suicidas. Há um tempo diferente nestes filmes, e é essa diferença que é tão interessante acompanhar.
Também nestes últimos dias, já foi possível assistir a algumas sessões da competição internacional. O nível, para já, é médio: já foi possível ver algumas boas curtas, mas ainda não apareceu nenhum filme de grande nível. A ficção predomina e aí foi possível notar uma certa tendência para um realismo social, casos de «Cada Dia é Diferente», de Vsakdan Nivsakdan (uma história de uma mulher prestes a ter um bebé e onde diferentes personagens chocam uma com as outras, num interessante exercício multi-narrativo), «Alexandra», de Radu Jude (a história de um pai divorciado que discute com a mãe o poder parental sobre a filha, Alexandra, num filme tipicamente romeno), «Dennis», de Mads Matthesen (sobre um bodybuilder tímido que arrisca um encontro com uma rapariga, mas não consegue sair da asa da sua mãe). Outras duas ficções tentam reinventar os códigos: «La Copie de Coralie» (um musical sobre a história de um amor perdido de um dono de uma loja de fotocópias), e, finalmente, «The Adventure», do americano Mike Brune (uma típica curta indie onde um casal de americanos passeia por um parque natural e descobre um par de mimos).
De destacar, ainda, dois filmes opostos: «Nightstill», uma curta organizada numa sequência de timelapses, onde belíssimas imagens da neve nos oferecem o amanhecer e o por do sol. Claro que grande parte do interesse da curta está na técnica e nos próprios timelapse, e menos no interesse narrativo. Curioso é também o documentário «Como ser Sedutora», sobre um curso para as raparigas se tornarem “mulheres sexualmente melhores”. É um exercício sociológico que revela muito sobre a sociedade russa actual, mas que pedia um pouco mais de fôlego.
Já vimos algumas curtas portuguesas, mas deixemos a análise geral para Domingo, já depois de revelados os grandes premiados, no Sábado à noite. Aí podermos detalhar as últimas novidade do cinema português e perceber para onde o Curtas está ir. Para já, a festa continua…