Arquivos Diários: Julho 13th, 2008

A Hora da Ficção

Como assinalado na edição de Sexta, Manoel de Oliveira foi homenageado pelo festival, juntando-se ao festejo do centenário do seu nascimento. Mas, para além disso, o Curtas agradeceu a força que Oliveira deu, desde o início do festival, como padrinho e como impulsionador criativo. Na verdade, Oliveira é o grande “pai” de todos, incluindo os realizadores que, ano após ano, estão presentes na competição. Presente na sala, Oliveira parece um jovem, quer de corpo (galgou o palco para chegar ao púlpito), quer na cabeça, já que as suas frases são espirituosas e extraordinárias. Muitas frases parecem simples, mas escondem um pensamento profundo e labiríntico nas teias da personagem humana.

Esta introdução não podia ser mais perfeita para falarmos, agora, da competição nacional desta 16.ª edição do Curtas. Durante três sessões foi possível, mais uma vez, tomar o pulso à produção nacional de formato curto. De um ponto de vista geral, a competição privilegiou a ficção como género preferido e mais bem trabalhado pelos realizadores. Como os últimos anos têm provado também assistimos a uma mistura de géneros, numa forma híbrida de encarar a narrativa.

Gostaríamos de destacar três filmes que, no nosso entender, são os melhores filmes da competição e que deverão estar presentes no palmarés que terá sido anunciado na noite de ontem. Dois desses filmes são puramente ficcionais. O primeiro é o regresso do encenador e autor de teatro Jorge Silva Melo ao cinema, com uma pequena narrativa que designou como “A Felicidade”. A principal personagem é o surpreendente Fernando Lopes aqui como um comovedor homem de idade que está ser levado pelo seu filho ao hospital. Eles seguem de carro pela marginal solarenga e a vida está em plena vitalidade no passeio da praia. Pai e filho recordam alguns bons momentos do passado enquanto ouvem música clássica. Quando chegam ao hospital o filho deixa sair o pai para estacionar o carro. É aí que sentimos um momento de fim, que é tão sereno como triste. Só é pena uma voz off explicar aquilo que já percebemos.

O segundo filme é “Alpha”, uma surpreendente ficção científica realizada por Miguel Fonseca numa produção O Som e a Fúria. Dois andróides de aparência humana estão na fase final de instrução para serem entregues aos seus donos (dois portugueses a residir no Japão). Aprendem tarefas básicas assim como complexas (como tirar o dono da tristeza). A abordagem formal é muito contida e prova que a ficção científica não precisa de efeitos especiais para passar ideias.

O terceiro filme é já um cruzamento entre ficção e documentário. Trata-se do regresso de Miguel Clara Vasconcelos ao festival (onde venceu o grande prémio com “Documento Boxe”) com uma narrativa que aborda a violência doméstica “Instantes”. O filme olha as personagens com uma evidente entrega e mostra que um assunto pode ser criativamente explorado. Formalmente é também um filme rigoroso e permite lançar a ponte entre a “história” inventada e as vozes de mulheres “reais” e vítimas de violência. Tem também um plano excepcional quando olha o vazio da personagem que se quer suicidar na Ponte da Arrábida.

Podemos também destacar outras curtas de algum interesse, caso de “Caravaggio”, mais uma ficção “teatral” de José Maria Vaz da Silva (como uma fotografia muito bonita e uma recriação de época cuidada); “Corrente”, de Rodrigo Areias, uma narrativa experimental, filmada artesanalmente em 16mm nas minas da Panasqueira (a experimentação formal é algo bastante importante no contexto do cinema do futuro e as imagens são bem conseguidas); “Outside”, de Sérgio Cruz, um documentário filmado na China, na ante-câmara dos jogos Olímpicos (e que consegue adaptar o “exotismo” oriental); e, finalmente, “Cândido”, uma animação de Zepe (que, assim, volta ao festival), com uma técnica típica do autor e uma história bem estruturada.

Menos conseguidos são os outros títulos, como “Fevereiro”, de Francisco Botelho (que se perde no labirinto da sua narrativa, apesar de uma interessante fotografia) ou “Odisseia”, de Rita Palma, demasiado previsível e inconstante.

Não podemos deixar de assinalar, ainda, uma outra característica recorrente desta edição: a força dos filmes experimentais. Por um lado, com as exposições na Solar (casos de Martin Arnold e Tsai Ming Liang), que nos permitem recontextualizar estes filmes. E, por outro, com alguns filmes exibidos na competição internacional, casos de “Obersvando el Cielo” (já a segunda curta que usa a técnica do timelapse), “Bordate” ou “Odin’s Shield Maiden”. Este é um género em crescimento, embora, este ano, os filmes mais interessantes tenham sido, mesmo na Competição Internacional, filmes de ficção.

Hoje acaba o festival com a exibição dos filmes premiados e o Curtas despede-se já a pensar no próximo ano (com uma prometida exibição de excertos de um filme inédito de Manoel de Oliveira). O Curtas já deixa saudades…