Arquivos Diários: Julho 18th, 2008

o mundo secreto
(texto publicado na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)

Como sempre, chega o calor e com ele chegam ao cinema filmes que pertecem a uma classe distinta: são os filmes blockbusters feitos para as crianças terem ocupação. Neste contexto, essa classe distinta costuma ser produzida por uma das produtoras mais relevantes da história deste cinema: a Disney. Contudo, alguns destes filmes são interessante e outros, simplesmente, são inúteis e talvez sirvam apenas para entreter os miúdos. É dentro dessa categoria que se inclui a estreia desta semana: «As Crónicas de Nárnia: O Príncipe Caspian». Na verdade, este é já o segundo filme da série que se iniciou com «As Crónicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa» que convoca as personagens criadas pelo escritor C.S. Lewis e que são, novamente, realizadas por Andrew Adamson. É curioso que o realizador é, a par destes filmes, o autor dos primeiros dois filmes de «Shrek». Estamos, portanto, a lidar com alguém especialmente vocacionado para um mundo infantil, mas que é capaz de o ler com muitos olhos. Contudo, esse não é o caso destas simplistas «Crónicas…».

A narrativa do filme volta aos seus quatro protagonistas: dois rapazes e duas raparigas que são os velhos reis de Nárnia. Contudo, quando voltam para a sua terra, eles são confrontados com o poder do rei Miraz (e dos Telmarines) que pretende matar Caspian, o princípe herdeiro, para coroar o seu filho acabado de nascer. Para além disso, os quatro reis terão que se aliar ao animais da floresta (animais falantes) para conseguir derrotar o exército burtal do rei Miraz. Mas, como a sua força é diminuta, os reis terão que usar outro recurso: encontrar o Leão Aslan para este, com os seus poderes, conseguir derrotar um exército inteiro.

Claro que basta sentir esta temática fantasiosa para perceber que filme temos. Para além disso, não há aqui o álibi da animação (como em «Shrek») que permite contornar a seriedade do tema com uma contagiante comédia de costumes. Nesse sentido, estas «Crónicas de Nárnia…» são um pastelão da literatura fantástica, incapaz de ir mais além, como, porventura, poderemos reconhecer no exemplo maior do género: «O Senhor dos Anéis». Chega, assim, a ser entendiante a forma como o filme percorre a sua história, contada vezes e vezes sem conta desde há muitos anos, como sabiamente já reconheceram os mais proeminentes linguistas. Até no domínio dos blockbusters essa ligação é antiga, bastando citar o exemplo mais longínquo (pelo meno para a miudagem de hoje) de «Guerra das Estrelas.

A sequência final é, pois, um monumento de estereotipia na construção do argumento: um obstáculo inultrapassável (a força do exército de Miraz) e a vinda de um poder “maior” (o leão Aslan) que, num só movimento, é capaz de derrotar um exército inteiro. Este jogo do espectáculo e deste poder “maior” é tão simplista como infeliz, colocando o nível etário do filme bem mais baixo. Venha o cinema verdadeiro!

«As Crónicas de Nárnia: O Príncipe Caspian» («The Chronicles of Narnia: Prince Caspian»), um filme de Andrew Adamson, com Ben Barnes, Georgie Henley, Skandar Keynes, William Moseley e Anna Popplewell. Estado Unidos/Reino Unido, 2008, Cores, 147 min.
Site Oficial: http://disney.go.com/disneypictures/narnia/