
a violência do poder
(texto publicado na edição de ontem do jornal «O Primeiro de Janeiro»)
Infelizmente, em Portugal pouco se vê cinema brasileiro. Na verdade, esse cinema é muito diverso e não se confunde com a ficção que as telenovelas da Globo exportam para o nosso país. Mesmo sem conhecer a verdadeiro dimensão da diversidade (só possível conhecer em alguns festivais de cinema, como é caso paradigmático do Festival Luso-Brasileiro), é possível reconhecer em alguns dos filmes estreado nos últimos anos, uma vitalidade do cinema brasileiro, sobretudo aquele que está ligado a uma certa tradição estética: o cruzamento de uma linguagem visual publicitária (porque muito trabalhada a nível da fotografia) com temas sociais sensíveis. Foi assim com o caso mais evidente dessa visibilidade – «Cidade de Deus», de Fernando Meirelles – e é assim com o filme que hoje estreia nas salas de cinema: «Tropa de Elite», do realizador José Padilha. Esta é a sua segunda longa-metragem (a primeira foi «Ônibus 174») e já é um caso de evidente sucesso, quer em termos de público brasileiro, quer em termos de festivais – foi o grande vencedor do Urso de Ouro no último festival de Berlim.
O filme é baseado num livro homónimo escrito por André Baptista, que narra a sua própria história (através da personagem de Nascimento): ele é um membro do BOPE, uma polícia de elite que actua em casos limite no interior das favelas brasileiras. Contudo, a sua vida está num impasse: ele vai ser pai e quer abandonar a linha da frente. Para isso, ele tem que encontrar o substituto ideal para o seu lugar. E esse substituto sairá da dupla de amigos Neto e Matias. Os dois são apenas polícias militares (a PM) e Matias ainda estuda para ser advogado. Contudo, ambos se inscrevem no curso para se tornarem membros do BOPE. Mas, Matias está demasiado envolvido com Maria, uma rapariga rica com preocupações sociais e que trabalha numa ONG no interior da favela. Maria não sabe que Matias pertence à polícia e isso levará a muitas complicações com os traficantes da favela. Nos meandros desta história, Nascimento terá que escolher o seu sucessor. Só quem sobreviver ao terror da BOPE poderá aceder ao estatuto.
É curioso que, na primeira parte de «Tropa de Elite», Matias, ainda na universidade, discute numa aula de sociologia o livro de Michel Foucault, «Vigiar e Punir», um texto que discute a forma como o poder se legitima através dos seus discursos e práticas sobre o corpo (a microfísica do poder). E, na verdade, o filme é sobre isso: a forma como o poder consegue controlar os seus desvios e a forma como uma sociedade se adapta ao contexto que ela própria cria. Neste caso, é a favela com um equilíbrio muito instável de poderes e de formas de violência. Não há dúvida, por isso, que este filme só podia ser assim, muito violento, capaz de impor uma ética da repressão que nos coloca contra a parede. É por isso que «Tropa de Elite» é um filme instável, sempre na corda bamba. Mas, parece-nos que José Padilha e os seus co-argumentistas fazem por isso: não há moral, o filme simplesmente apresenta uma história e coloca-a em frente aos nossos olhos. É certo que a voz-off de Nascimento (uma estratégia comum a alguns filmes brasileiros) nos obriga a uma identificação com a sua instabilidade. Aliás, tanto ele como Matias são apresentados como pessoas afáveis, capazes de criar empatia com o público. Contudo, o próprio filme se encarrega de desmontar essa identificação com sequências brutais onde ambos são protagonistas.
O filme despoletou muita discussão no Brasil e outra coisa não seria de esperar: todo o microcosmos da favela é explosivo e parece que qualquer tentativa de explicar se enreda num labirinto de cumplicidades e de corrupção entre polícia e traficantes de droga. A complexidade da estrutura de sociedade é, por isso, a imagem de marca. E se, por um lado, o filme justifica a criação de uma tropa de elite brutal (a BOPE), ele também denuncia as práticas de violência dessa polícia (para quem a morte é normal). É difícil, nesse sentido, fazer um juízo claro. Contudo, o filme é construído visualmente de uma forma muito semelhante com «Cidade de Deus» (os filmes parecem irmãos, olhando um para o outro de cada lado da barricada): uma imagem forte, com uma câmara descontrolada, sempre em cima das personagens e da acção. Nesse sentido, ele não deixa respirar, mas também essa é a sua função: colocar-nos entre a espada, obrigando-nos a olhar para a violência e a encarar a morte.
«Tropa de Elite». Um filme de José Padilha, com Wagner Moura, André Ramiro, Caio Junqueira e Maria Ribeiro. Brasil, 2007, Cores, 117 min
Site Oficial: http://www.tropadeeliteofilme.com.br/
