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Speed Racer
o segredo da família
(artigo publicado na edição de Quinta-Feira de «O Primeiro de Janeiro»)

O cinema de imagem real mais infantil de Hollywood sempre foi um cinema muito conformado e conservador, de forma a que estes filmes se tornem os filmes de Domingo à tarde nas televisões generalistas. Aqui em Portugal, esse tipo de filmes é de reconhecimento óbvio, já que os Domingos em família têm obrigatoriamente que passar estas histórias. Ver estes filmes em cinema é, por isso, um exercício penoso, já que as narrativas são amontoados de clichés e estereótipos de como viver em sociedade. Um dos exemplos mais claros deste tipo de cinema estreia hoje nas salas portuguesas e promete ser um dos blockbusters do Verão: trata-se de «Speed Racer», um filme adaptado da série homónima de televisão, realizado pela dupla dos irmãos Wachowsk, os mesmos que foram responsáveis pela trilogia «Matrix».

A narrativa do filme assegura que os objectivos são alcançados: Speed Racer é um corredor jovem, que ainda corre com um carro (o Mach 5) desenhado e construído pelo pai. O negócio, por isso, mantém-se na família. Contudo, a família ainda vive com um choque: a morte do irmão de Speed (Rex Racer), há muitos anos atrás, quando conduzia o seu carro. Speed já se mostra tão rápido como o irmão e, por isso, é aliciado pelas Royalton Industries, uma grande empresa que produz carros e representa corredores. Contudo, Speed quer manter o negócio da família e rejeita a proposta, enfurecendo o dono da empresa. Ao mesmo tempo, a autoridade do Desporto propõe a Speed correr uma mítica corrida (The Crucible) com o propósito de desmascarar as ilegalidades cometidas pela Royalton. Speed irá mostrar que é um piloto fantástico e irá conhecer o Racer X, um estranho corredor que se esconde atrás de uma máscara e que também é um agente da Autoridade do Desporto.

Na verdade, apesar de haver uma tentativa para organizar uma história, «Speed Racer» organiza-se de outra forma: em três grandes corridas distintas (uma no início, outra no meio e uma última no fim. Mas a única ideia que o filme pretende passar é a de que a família é o mais importante, custe o que custar. Nesse sentido, o filme é feito de um paradoxo constante: se, por um lado, há um clara divisão entre bons e maus (aqui personificados pela família/os bons; e as grandes empresas/os maus); por outro lado, «Speed Racer» é feito por uma grande empresa com o único propósito de fazer dinheiro. Nesse sentido, a constante moralidade do filme, colocada sobre o ponto de vista de uma óbvia divisão entre os heróis e os vilões, é questionada sob a forma como é produzida, promovida e vendida aos espectadores. Nada mais paradigmático de uma certa forma de actuação das grandes empresas.

Por isso, é que «Speed Racer» é um vulgaríssimo filme de Domingo à tarde, feito para encher as salas de cinema durante um mês, mas para depois cair no esquecimento. É, pois, um filme infantil, para audiência juvenis e sem quaisquer propósitos de questionamento. Nesse sentido, a moralidade pretende prolongar o “status-quo” da família, o que, em si, é um próprio paradoxo, já que a família Racer é tudo menos uma família equilibrada. Muitas vezes, este álibi da família parece-se com “O Segredo”, esse fenómeno de descoberta da felicidade que, no último ano, tem inundado o mercado cultural. É como se «Speed Racer» prolongasse as ideias substanciais dessa filosofia, a saber: afinal de contas, basta apenas “visualizar” o desejo para o conseguir. Tal como as corridas de Speed, sempre constantes jogos de ilusões sobre os veículos que correm desvairadamente.

Provavelmente, muitos falarão dos “efeitos especiais”, razão máxima para a presença dos irmãos Wachowski no filme. Mas esse é um engano puro. Sim, há muitos efeitos e muito bem feitos, mas esse molde serve apenas para contar a mesma história de sempre. Que desilusão é ver este “cinema”…

«Speed Racer» («Speed Racer»). Um filme de Andy Wachowski e Larry Wachowski, com Christina Ricci, John Goodman, Susan Sarandon e Matthew Fox. Estados Unidos, 2008, Cores, 135 min
Site Oficial: http://speedracerthemovie.warnerbros.com/

O Meu Irmão é Filho Único

o espírito do tempo
(crítica publicada na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)

O cinema italiano é algo bastante obscuro no actual panorama da exibição internacional. Tirando o caso óbvio de Nanni Moretti (que consegue, de facto, que os seus filmes sejam vistos em muitos locais) e de um ou outro exemplo de um inverosímil sucesso (como foi «A Melhor Juventude»), são raríssimos os filmes italianos que chegam até cá. Estreia hoje, contudo, nos nossos cinemas, um novo sucesso internacional italiano: «O Meu Irmão é Filho Único», do realizador Daniele Luchetti. O filme venceu alguns dos Donatellos, os maiores prémios da indústria cinematográfica italiana e esteve presente na secção «Un Certain Règard» do Festival de Cannes. De certa forma, o filme segue algumas das ideias feitas sobre cinema italiano: actores disponíveis, uma história “histórica”, e uma fluência narrativa clara. Como curiosidade, vale a pena lembrar que os guionistas deste filme são os mesmos autores do guião de «A Melhor Juventude».

A narrativa do filme segue a história de uma família numa pequena cidade italiana dos anos 60. Na verdade, o filme concentra-se em Accio, um irrequieto miúdo que cresce na percepção de que ninguém quer saber dele. Na fase da adolescência tardia, Accio inscreve-se mesmo num partido fascista, o que vai em confronto com a tendência comunista da família: Manrico, o seu irmão mais velho, já milita no PC italiano e lidera os movimentos contra a exploração dos trabalhadores fabris. Entretanto, os dois crescem num ambiente de mútua confrontação. Para além disso, Manrico é mulherengo e bonito e Accio não parece ter nenhuma amizade, para além do partido. Manrico namora com Amélia (com quem terá um filho), de quem Accio também gosta. Com o crescimento de Accio, este torna-se menos vulnerável, chegando a romper com o partido fascista. Será neste contexto, portanto, que o filme se coloca: as personagens confrontam-se com o seu tempo e este deixa-lhes marcas evidentes.

«O Meu Irmão é Filho Único» tem características óbvias de filme histórico: isto é, coloca-se num tempo bastante icónico e faz com que as personagens se movimentem dentro dele. Contudo, aquilo que o filme faz melhor é transformar as personagens em pessoas verdadeiras, que têm complexidade e contradições. Essa mais valia (que, é certo, se torna óbvia no tempo histórico do filme) faz com que se acredite mais nestas personagens, porque não são previsíveis. Para além disso, o filme tem uma narrativa serena, que apenas explode no final, quando Manrico é assassinado. Nesta forma, conseguimos perceber melhor as nuances da época, de ver a maneira como todos viviam acima das expectativas, criando, a todo o custo, acontecimentos para fazer vincar o ponto de vista (como os fascistas fazem ao queimar os carros dos comunistas). Talvez esteja clareza narrativa a crítica do próprio filme, já que as elipses que o filme constrói a partir da segunda metade fazem com que seja menos complexo aquilo que se passa com as personagens.

Contudo, o ponto de vista cinematográfico do realizador obriga a câmara a aproximar-se das personagens, optando por um movimento livre, que deixa os actores improvisarem, mostrando, assim, os sentimentos voláteis. Esse lado “à flor da pele” é o que faz o espectador aderir a «O Meu Irmão é Filho Único», algo que é muito ajudado pela banda sonora: sucessos italianos da época, que, à distância, parecem verdadeiros sinais dos tempos. É claro que o filme acaba por ser um filme datado, mas a convulsão dos anos 60 e 70 também permite ver as personagens e sentir nelas que esse espírito do tempo é só uma forma de as personagens viverem. Por outro lado, os sentimentos serão sempre iguais, apenas com desafios exteriores diferentes. É nesta amálgama que «O Meu Irmão é Filho Único» tem as suas principais qualidades.

«O Meu Irmão é Filho Único» («Mio Fratello è Figlio Unico»). Um filme de Daniele Luchetti, com Elio Germano, Riccardo Scamarcio e Angela Finocchiaro. França/Itália, 2008, Cores, 108 min.
Site Oficial: http://www.mybrotherfilm.co.uk/

Alexandra
o pó da guerra
(texto publicado na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)

Em 1997, saí do cinema extasiado (ainda me lembro: foi na sala de cinema que eu mais gostava, o Nun’Álvares). Acabara de ver a descoberta de um grande filme, que era, ao mesmo tempo, a descoberta de um autor. Era uma espécie de lição poética do cinema, algo que, mais tarde, percebi ser de longa tradição no cinema russo (era, portanto, um filme filiado nessa tradição). Tratava-se do maior sucesso, à data, do realizador Aleksandr Sokurov e o filme era o magistral «Mãe e Filho». Depois, o realizador tornou-se mais presente nas salas portuguesas, assinando uns filmes tão bons e outros menores. Mais tarde, Sokurov voltou com outro filme-limite: «A Arca Russa», filme-acontecimento filmado num único plano-sequência no Museu Hermitage. Contudo, esse filme nunca chegou a ter uma verdadeira estreia comercial em Portugal (apenas passagens pontuais em ciclos especiais). Foi com este historial que voltei ao seu cinema, agora com a estreia do seu último filme, «Alexandra», que chega a Portugal com mais de um ano de atraso (esteve presente na edição de 2007 de Cannes).

«Alexandra» é um pequeno filme de Sokurov, que segue, na sua narrativa, a viagem de Alexandra, uma velha senhora russa, que visita o seu neto num campo militar na Chechénia. Alexandra viaja com os soldados num comboio militar e, já no campo, visita atentamente todos os seus lugares mais escondidos, onde descobrirá a forma pouco higiénica com que os soldados vivem. O seu neto mostrar-lhe-á alguns desses locais, nos tempos mortos em que não está em serviço. Mas Alexandra terá também tempo para visitar o mercado da aldeia mais próxima e privar, ao nível dos olhares, com os seus habitantes. É, pois, na descoberta desse mundo novo que o filme se coloca perante o olhar de uma velha anciã russa.

Não há dúvida que o filme tens as marcas mais evidentes do cinema de Sokurov: uma atenção visual pelo real, pelas cores e pelos cheiros que se sentem naquele microcosmos de guerra. Nesse sentido, mais uma vez, este parece ser um filme antropológico, num sentido muito humanista: o que interessa ao realizador é que as personagens sejam verídicas, que sintam o cansaço nas pernas e o calor que o filme transparece. Nesse sentido, as personagens de Sokurov são um espelho para o espectador, que deve sentir essa latência que salta da película. Apesar disso, o filme é bastante diferente de «Mãe e Filho», sobretudo na sua ligação com o real. Em «Alexandra» tudo converge para a situação política, mesmo que apenas subtilmente, ao nível dos diálogos, isso seja aludido (já que visualmente será demasiado óbvia a destruição que veremos na aldeia).

Nesse sentido, vale a pena recordar que o filme foi rodado na própria Chechénia (ao contrário da maior parte dos filmes que abordam o conflito, que filmam em lugares visualmente semelhantes), sob dificuldades logísticas. Para além disso, a protagonista, Alexandra, é interpretada por um diva da Ópera Russa, Galina Vishnevskaya. Algo que só pode ser marcante, em todo o contexto narrativo do filme: uma avó que visita o seu neto perto do local de guerra e nota nele um mudança de atitude, uma única propensão para a guerra, ele que já não sabe quantas pessoas matou.

Enfim, Sokurov volta em «Alexandra» a dar um tom poético, mas aqui esse tom é, sobretudo, encontrado no próprio ritmo narrativo. Neste filme, a tonalidade visual é, por outro lado, bastante realista, dando a ver o pó e a areia que anda sempre no ar, contaminado os corpos nus dos soldados. Há, por isso, uma consciência clara de que a guerra interminável da Chechénia é ainda um indício de vergonha para o governo russo e para a consciência mundial. Ao seu estilo, Sokurov mostra-nos as marcas e as rugas que essa guerra já causou. No lado checheno, mas também no lado dos soldados russos. Porque a guerra altera sempre todos os que estão envolvidos nela.

«Alexandra» («Aleksandra»). Um filme de Aleksandr Sokurov, com Galina Vishnevskaya, Vasily Shevtsov e Raisa Gichaeva. França/Rússia, 2007, Cores, 90 min.
Site Oficial: http://www.sokurov.spb.ru/


um pouco mais do mesmo…
(texto publicado na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»

Há cerca de dez anos atrás, uma estação de cabo americana dava os primeiros passos para a transformação radical do panorama televisivo. Tratava-se da HBO e produzia, por aqueles tempos, séries como «Sete Palmos de Terra» (2001) ou «Os Sopranos» (1999). Desses marcos transformadores da linguagem televisiva, apareceu também «Sexo e a Cidade» (aliás, previamente às anteriores, em 1998). No conjunto, estas três séries (e outras que lhes seguiram) traziam uma nova abordagem temática e cinematográfica à forma como se fazem as séries de televisão. É na consequência óbvia do sucesso de «Sexo e a Cidade» que surge, nas nossas salas, o mais do que esperado filme a partir da série, com o título homónimo. Depois de algumas complicações (sobretudo devido às negociações com Kim Cattral/Samantha, que protelou o filme durante três anos), o criador e realizador da série, Michael Patrick King, consegue assinar a realização do filme. Na verdade, como muitos esperarão, a película segue fielmente a lógica da série, agora encurtada para “caber” no filme de duas horas.

A narrativa – mais uma vez iniciada e contada pela voz de Carrie – apanha as quatro protagonistas num patamar diferente da vida: todas elas estão agora apaixonadas e a viver com os seus respectivos homens. Por um lado, Charlotte e Miranda casaram e tiveram filhos (a de Charlotte é adoptada); por outro, Samantha vive agora em Los Angeles com um actor de Hollywood (sendo a sua agente). Finalmente, Carrie juntou-se com Mr. Big, o eterno e adiado amor da série de televisão. Na verdade, o filme começa com a sua decisão em se casar. Contudo, Mr. Big/John acaba por deixar Carrie pendurada no dia de casamento. É a oportunidade para o filme dar um longo tempo para a recuperação emocional de Carrie e a respectiva reconciliação com Mr. Big. Durante esse tempo, veremos as voltas que as vidas das suas três amigas dão.

Como se pode ver pela sinopse linear, «Sexo e a Cidade» acaba por ser estruturado como um típica comédia romântica. Contudo, a forma mais “dramática” como o filme é colocado acaba por desfavorecê-lo, já que se torna demasiado previsível. Nesse sentido, tudo se encaminha para a resolução (com mais ou menos tempo para “recolocar” as personagens na rota das outras), algo que é dramaticamente castrador de alguma ambivalência que a série de televisão produzia. A série, no advento no século XXI, apostava naquelas quatro personagens como representantes de uma certa cultura urbana nova-iorquina, com as suas formas múltiplas de relacionamentos. O filme, contudo, com o argumento de que as personagens “estão mais velhas” torna-as mais previsíveis e, por isso, menos interessantes. Não é que seja menos “realista”, mas é bem menos problemático. E sem um “bom problema” o filme também perde.

Ainda assim, todo o look da série se mantém, com as cores bem atraentes dos vestidos mais improváveis que as quatro mulheres vestem. Nesse sentido, este «Sexo e a Cidade» continua óptimo, com uma panóplia de guarda roupa impressionante e nunca deixando as personagens vestir roupas “menores”. Sente-se também que esta é uma versão mais «light» da série – talvez para ficar conforme uma faixa etária mais comercial – abdicando de algumas cenas mais «picantes», que, mesmo assim, ainda aparecem. Em conclusão, como o formato de comédia romântica não é alterado, o filme fica bem menos interessante. Sobretudo por isso, soa a uma oportunidade perdida para poder rever a confusão sentimental que a série convocava.

«Sexo e a Cidade» («Sex and the City»). Um filme de Michael Patrick King, com Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis e Cynthia Nixon. Estados Unidos, 2008, Cores, 148 min.
Site Oficial: http://www.sexandthecitymovie.com/

Daniel Ribas

Dia 29 de Maio (Quinta-Feira) – Cinema Passos Manuel (Rua Passos Manuel, 137 – Porto) 22.00h – ENTRADA LIVRE

Cartaz

“Nós não atravessamos fronteiras, as fronteiras atravessaram-se entre nós”   Graffiti em Ceuta

Partindo de todas as partes de África corre uma multidão de homens invisíveis preparados para atravessar continentes inteiros perseguindo uma ideia eternamente negada àqueles que vivem na periferia – a de uma vida melhor. Enfrentam desertos, máfias, sede e fome até colidir contra um muro de arame farpado ou atravessar uma trágica e precária travessia marítima – os obstáculos que os separam do seu objectivo quase mitológico – a Europa.

O nosso filme parte em contracorrente a este fluxo, dirigindo-se de Norte para Sul em busca dos migrantes que atravessam o deserto – heróis nómadas dos tempos que correm, em luta contra uma abstracção: a ideia de fronteira. 

O móbil principal para fazermos este filme foi a abundância ensurdecedora de imagens falhadas sobre este tema. A quase totalidade dos trabalhos que conhecemos perde-se na ilustração factual, no tratamento das pessoas que quer filmar dentro de uma lógica humanitária e caridosa, dedica-se a reproduzir e perpetuar a sua condição de miseráveis, de desfavorecidos, de fugitivos, de clandestinos, de vítimas ,eclipsando a sua existência enquanto aventureiros, viajantes, curiosos, vendedores de fruta fartos de o ser, barbeiros, pais, filhos, amantes, sonhadores ambiciosos, desiludidos, desertores.

Frederico Lobo e Pedro Pinho