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A Hora da Ficção

Como assinalado na edição de Sexta, Manoel de Oliveira foi homenageado pelo festival, juntando-se ao festejo do centenário do seu nascimento. Mas, para além disso, o Curtas agradeceu a força que Oliveira deu, desde o início do festival, como padrinho e como impulsionador criativo. Na verdade, Oliveira é o grande “pai” de todos, incluindo os realizadores que, ano após ano, estão presentes na competição. Presente na sala, Oliveira parece um jovem, quer de corpo (galgou o palco para chegar ao púlpito), quer na cabeça, já que as suas frases são espirituosas e extraordinárias. Muitas frases parecem simples, mas escondem um pensamento profundo e labiríntico nas teias da personagem humana.

Esta introdução não podia ser mais perfeita para falarmos, agora, da competição nacional desta 16.ª edição do Curtas. Durante três sessões foi possível, mais uma vez, tomar o pulso à produção nacional de formato curto. De um ponto de vista geral, a competição privilegiou a ficção como género preferido e mais bem trabalhado pelos realizadores. Como os últimos anos têm provado também assistimos a uma mistura de géneros, numa forma híbrida de encarar a narrativa.

Gostaríamos de destacar três filmes que, no nosso entender, são os melhores filmes da competição e que deverão estar presentes no palmarés que terá sido anunciado na noite de ontem. Dois desses filmes são puramente ficcionais. O primeiro é o regresso do encenador e autor de teatro Jorge Silva Melo ao cinema, com uma pequena narrativa que designou como “A Felicidade”. A principal personagem é o surpreendente Fernando Lopes aqui como um comovedor homem de idade que está ser levado pelo seu filho ao hospital. Eles seguem de carro pela marginal solarenga e a vida está em plena vitalidade no passeio da praia. Pai e filho recordam alguns bons momentos do passado enquanto ouvem música clássica. Quando chegam ao hospital o filho deixa sair o pai para estacionar o carro. É aí que sentimos um momento de fim, que é tão sereno como triste. Só é pena uma voz off explicar aquilo que já percebemos.

O segundo filme é “Alpha”, uma surpreendente ficção científica realizada por Miguel Fonseca numa produção O Som e a Fúria. Dois andróides de aparência humana estão na fase final de instrução para serem entregues aos seus donos (dois portugueses a residir no Japão). Aprendem tarefas básicas assim como complexas (como tirar o dono da tristeza). A abordagem formal é muito contida e prova que a ficção científica não precisa de efeitos especiais para passar ideias.

O terceiro filme é já um cruzamento entre ficção e documentário. Trata-se do regresso de Miguel Clara Vasconcelos ao festival (onde venceu o grande prémio com “Documento Boxe”) com uma narrativa que aborda a violência doméstica “Instantes”. O filme olha as personagens com uma evidente entrega e mostra que um assunto pode ser criativamente explorado. Formalmente é também um filme rigoroso e permite lançar a ponte entre a “história” inventada e as vozes de mulheres “reais” e vítimas de violência. Tem também um plano excepcional quando olha o vazio da personagem que se quer suicidar na Ponte da Arrábida.

Podemos também destacar outras curtas de algum interesse, caso de “Caravaggio”, mais uma ficção “teatral” de José Maria Vaz da Silva (como uma fotografia muito bonita e uma recriação de época cuidada); “Corrente”, de Rodrigo Areias, uma narrativa experimental, filmada artesanalmente em 16mm nas minas da Panasqueira (a experimentação formal é algo bastante importante no contexto do cinema do futuro e as imagens são bem conseguidas); “Outside”, de Sérgio Cruz, um documentário filmado na China, na ante-câmara dos jogos Olímpicos (e que consegue adaptar o “exotismo” oriental); e, finalmente, “Cândido”, uma animação de Zepe (que, assim, volta ao festival), com uma técnica típica do autor e uma história bem estruturada.

Menos conseguidos são os outros títulos, como “Fevereiro”, de Francisco Botelho (que se perde no labirinto da sua narrativa, apesar de uma interessante fotografia) ou “Odisseia”, de Rita Palma, demasiado previsível e inconstante.

Não podemos deixar de assinalar, ainda, uma outra característica recorrente desta edição: a força dos filmes experimentais. Por um lado, com as exposições na Solar (casos de Martin Arnold e Tsai Ming Liang), que nos permitem recontextualizar estes filmes. E, por outro, com alguns filmes exibidos na competição internacional, casos de “Obersvando el Cielo” (já a segunda curta que usa a técnica do timelapse), “Bordate” ou “Odin’s Shield Maiden”. Este é um género em crescimento, embora, este ano, os filmes mais interessantes tenham sido, mesmo na Competição Internacional, filmes de ficção.

Hoje acaba o festival com a exibição dos filmes premiados e o Curtas despede-se já a pensar no próximo ano (com uma prometida exibição de excertos de um filme inédito de Manoel de Oliveira). O Curtas já deixa saudades…


Os Primeiros Dias da Festa

Nos primeiros dias de Vila do Conde, os dias começam a tornar-se longos: muitos filmes, sessões atrás das outras à procura das novidades e das surpresas. O cansaço até toma conta de nós, mas uma vontade cinéfila faz-nos manter acordados até noite dentro. A primeira reacção a estes visionamentos é a da descoberta de novos autores asiáticos e algumas curtas que vão enchendo as medidas. Ainda não houve um fascínio especial, mas ainda falta muito festival para o Curtas acabar.

A primeira grande descoberta deu-se na secção In Progress com a exibição, em ante-estreia nacional, da segunda longa-metragem de Miguel Gomes: «Aquele Querido Mês de Agosto». O realizador é uma espécie de filho do Curtas, já que várias das suas curtas-metragens foram exibidas e premiadas no festival. Esta segunda incursão no formato longo revela um autor capaz de se reinventar. Ao contrário de «A Cara Que Mereces», filme demasiado feito para dentro, «Aquele Querido Mês de Agosto» é luminoso, ao cruzar o documentário (a primeira parte do filme), com a ficção (a segunda e última parte). Este cruzamento de linguagens permite ao filme entrar no âmago da cultura popular portuguesa, um mundo de bandas de “música ligeira”. Uma revelação.

Na terça-feira, o festival conheceu a obra de dois realizadores asiáticos, cuja obra tem conhecido uma crescente divulgação nos circuitos internacionais. O primeiro deles faz parte da secção In Focus: Yu Lik-wai. Foi apresentada uma das suas longas-metragens, «All Tomorrow’s Parties». O filme é uma incursão pela ficção científica, num mundo pós-apocalíptico, onde sobram várias referências políticas e culturais. Há uma noção clara de situação limite, colocando as personagens num mundo sem referências morais. O choque é brutal. Na secção In Progress, foi possível ver uma longa-metragem, «Help Me Eros» de Lee Kang-Cheng, o actor fétiche do realizador Tsai Ming Liang. Na verdade, as referências ao seu mentor são mais do que explícitas, através da construção de uma narrativa lenta, acompanhando a degração física de um corretor de bolsa na falência e com tendências suicidas. Há um tempo diferente nestes filmes, e é essa diferença que é tão interessante acompanhar.

Também nestes últimos dias, já foi possível assistir a algumas sessões da competição internacional. O nível, para já, é médio: já foi possível ver algumas boas curtas, mas ainda não apareceu nenhum filme de grande nível. A ficção predomina e aí foi possível notar uma certa tendência para um realismo social, casos de «Cada Dia é Diferente», de Vsakdan Nivsakdan (uma história de uma mulher prestes a ter um bebé e onde diferentes personagens chocam uma com as outras, num interessante exercício multi-narrativo), «Alexandra», de Radu Jude (a história de um pai divorciado que discute com a mãe o poder parental sobre a filha, Alexandra, num filme tipicamente romeno), «Dennis», de Mads Matthesen (sobre um bodybuilder tímido que arrisca um encontro com uma rapariga, mas não consegue sair da asa da sua mãe). Outras duas ficções tentam reinventar os códigos: «La Copie de Coralie» (um musical sobre a história de um amor perdido de um dono de uma loja de fotocópias), e, finalmente, «The Adventure», do americano Mike Brune (uma típica curta indie onde um casal de americanos passeia por um parque natural e descobre um par de mimos).

De destacar, ainda, dois filmes opostos: «Nightstill», uma curta organizada numa sequência de timelapses, onde belíssimas imagens da neve nos oferecem o amanhecer e o por do sol. Claro que grande parte do interesse da curta está na técnica e nos próprios timelapse, e menos no interesse narrativo. Curioso é também o documentário «Como ser Sedutora», sobre um curso para as raparigas se tornarem “mulheres sexualmente melhores”. É um exercício sociológico que revela muito sobre a sociedade russa actual, mas que pedia um pouco mais de fôlego.

Já vimos algumas curtas portuguesas, mas deixemos a análise geral para Domingo, já depois de revelados os grandes premiados, no Sábado à noite. Aí podermos detalhar as últimas novidade do cinema português e perceber para onde o Curtas está ir. Para já, a festa continua…

Caros amigos e amigas:

Desde há algum tempo, tenho verificado um decréscimo de suportes média, para o debate e exposição da cultura cinematográfica portuguesa ou em português.

Não me atrevo a dizer que é nula, porque não o é. Efectivamente há vários blogs, quer pessoais quer colectivos, que incidem sobre o contexto. Também há web sites relativos ao tema, alguns dos quais em funcionamento há quase dez anos, como é o caso do http://www.cinema2000.pt/. Muitos destes web sites e blogs têm um número significativo de visitantes, basta ver os números: http://paixoesedesejos.blogspot.com/ ou http://lauroantonioapresenta.blogspot.com/ (no entanto este é mais generalista). A nível de revistas, apesar da extinção da Premiere (que metamorfoseou-se em formato blog: http://www.premiere-portugal.blogspot.com), ainda há algumas revista que sobrevivem, com enorme sacrifício, presumo eu, como é o caso da Docs.pt, para além dos suplementos e cadernos de vários jornais.

Não está fácil e é preciso mais. Um país como Portugal tem todas as condições para o suporte do debate cinematográfico, e é vital para a sua integridade e o seu desenvolvimento, especialmente com a nova vaga de produção que se tenta afirmar. Adiante…

O que vos proponho é a criação de um blog colectivo sobre cinema, um ponto de encontro simples, directo, com dezenas de participantes activos diariamente.

Um blog livre, sem pressões e objectivos, sobre cinema português e internacional e outros temas relacionados. Um blog onde dezenas de pessoas serão convidadas a participar de variadas maneiras. Escritos sobre filmes (enterrados, em exibição, esquecidos, marginalizados, amadores, …) projectos pessoais, cartazes, festivais, estéticas, curiosidades, filosofias, séries, políticas, realizadores, geografias, instituições/associações, teorias, utilidades, etc, como também a colocação (post) de imagens, vídeos, músicas e links.

A base deste projecto é o ponto de encontro que se cria, como tal, incito a todos vós à vossa participação activa e regular. Apesar da modesta expectativa que tenho sobre este projecto num nível social/mediático, pretendo ultrapassar as metas comuns de um blog à deriva, isto é, furando limites com elevado número de participações e visitantes. Um blog pode ter relativamente 100 autores e eu pretendo esgotar esse número, assim como manter elevado o de visitantes. Obviamente não será do dia para a noite que atingiremos esses valores, primeiro é preciso criar o hábito, contribuindo, para que depois passa a ser instintivo o uso deste site.

Com o vosso apoio não antevejo nenhuma contrariedade, apenas benefícios mútuos. Penso que na vida, todos nós, queremos o nosso melhor (“nosso” é a palavra chave) mas isso, na maior parte das vezes atinge-se trabalhando em conjunto!