o mundo secreto
(texto publicado na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)

Como sempre, chega o calor e com ele chegam ao cinema filmes que pertecem a uma classe distinta: são os filmes blockbusters feitos para as crianças terem ocupação. Neste contexto, essa classe distinta costuma ser produzida por uma das produtoras mais relevantes da história deste cinema: a Disney. Contudo, alguns destes filmes são interessante e outros, simplesmente, são inúteis e talvez sirvam apenas para entreter os miúdos. É dentro dessa categoria que se inclui a estreia desta semana: «As Crónicas de Nárnia: O Príncipe Caspian». Na verdade, este é já o segundo filme da série que se iniciou com «As Crónicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa» que convoca as personagens criadas pelo escritor C.S. Lewis e que são, novamente, realizadas por Andrew Adamson. É curioso que o realizador é, a par destes filmes, o autor dos primeiros dois filmes de «Shrek». Estamos, portanto, a lidar com alguém especialmente vocacionado para um mundo infantil, mas que é capaz de o ler com muitos olhos. Contudo, esse não é o caso destas simplistas «Crónicas…».

A narrativa do filme volta aos seus quatro protagonistas: dois rapazes e duas raparigas que são os velhos reis de Nárnia. Contudo, quando voltam para a sua terra, eles são confrontados com o poder do rei Miraz (e dos Telmarines) que pretende matar Caspian, o princípe herdeiro, para coroar o seu filho acabado de nascer. Para além disso, os quatro reis terão que se aliar ao animais da floresta (animais falantes) para conseguir derrotar o exército burtal do rei Miraz. Mas, como a sua força é diminuta, os reis terão que usar outro recurso: encontrar o Leão Aslan para este, com os seus poderes, conseguir derrotar um exército inteiro.

Claro que basta sentir esta temática fantasiosa para perceber que filme temos. Para além disso, não há aqui o álibi da animação (como em «Shrek») que permite contornar a seriedade do tema com uma contagiante comédia de costumes. Nesse sentido, estas «Crónicas de Nárnia…» são um pastelão da literatura fantástica, incapaz de ir mais além, como, porventura, poderemos reconhecer no exemplo maior do género: «O Senhor dos Anéis». Chega, assim, a ser entendiante a forma como o filme percorre a sua história, contada vezes e vezes sem conta desde há muitos anos, como sabiamente já reconheceram os mais proeminentes linguistas. Até no domínio dos blockbusters essa ligação é antiga, bastando citar o exemplo mais longínquo (pelo meno para a miudagem de hoje) de «Guerra das Estrelas.

A sequência final é, pois, um monumento de estereotipia na construção do argumento: um obstáculo inultrapassável (a força do exército de Miraz) e a vinda de um poder “maior” (o leão Aslan) que, num só movimento, é capaz de derrotar um exército inteiro. Este jogo do espectáculo e deste poder “maior” é tão simplista como infeliz, colocando o nível etário do filme bem mais baixo. Venha o cinema verdadeiro!

«As Crónicas de Nárnia: O Príncipe Caspian» («The Chronicles of Narnia: Prince Caspian»), um filme de Andrew Adamson, com Ben Barnes, Georgie Henley, Skandar Keynes, William Moseley e Anna Popplewell. Estado Unidos/Reino Unido, 2008, Cores, 147 min.
Site Oficial: http://disney.go.com/disneypictures/narnia/

Só hoje reparei na notícia:

Jornal Público
Porto vai ter cinemateca no próximo ano
14.07.2008

Até ao final do mandato do actual governo, o Porto vai ter uma cinemateca instalada na Casa das Artes. O complexo vai chamar-se Henrique Alves Costa (que era já o nome da sala de cinema que aí funcionou). O “compromisso” foi assumido publicamente pelo ministro da Cultura, no sábado à noite, na inauguração da exposição que o Museu de Serralves dedica a Manoel de Oliveira.
José António Pinto Ribeiro acrescentou que a cinemateca será gerida “a partir do Porto e por gente da cidade”, e contará com o apoio da Cinemateca Portuguesa e do seu director, João Bénard da Costa. O ministro pediu também o envolvimento da Fundação de Serralves e da Câmara do Porto para a instalação do equipamento.
Em declarações ao PÚBLICO, Pinto Ribeiro disse que não podia comprometer-se com datas: “Será o mais depressa que eu puder, até às próximas eleições. É um projecto que eu tenho na cabeça há muito tempo, e no qual comecei a trabalhar logo que tomei posse”, adiantou o ministro, que também não tem ainda uma equipa designada para gerir o equipamento.
A Casa das Artes já está a ser alvo de obras de readaptação para a cinemateca, que estão a ser orientadas pelo arquitecto Eduardo Souto Moura, autor do projecto inicial. S.C.A.

A Hora da Ficção

Como assinalado na edição de Sexta, Manoel de Oliveira foi homenageado pelo festival, juntando-se ao festejo do centenário do seu nascimento. Mas, para além disso, o Curtas agradeceu a força que Oliveira deu, desde o início do festival, como padrinho e como impulsionador criativo. Na verdade, Oliveira é o grande “pai” de todos, incluindo os realizadores que, ano após ano, estão presentes na competição. Presente na sala, Oliveira parece um jovem, quer de corpo (galgou o palco para chegar ao púlpito), quer na cabeça, já que as suas frases são espirituosas e extraordinárias. Muitas frases parecem simples, mas escondem um pensamento profundo e labiríntico nas teias da personagem humana.

Esta introdução não podia ser mais perfeita para falarmos, agora, da competição nacional desta 16.ª edição do Curtas. Durante três sessões foi possível, mais uma vez, tomar o pulso à produção nacional de formato curto. De um ponto de vista geral, a competição privilegiou a ficção como género preferido e mais bem trabalhado pelos realizadores. Como os últimos anos têm provado também assistimos a uma mistura de géneros, numa forma híbrida de encarar a narrativa.

Gostaríamos de destacar três filmes que, no nosso entender, são os melhores filmes da competição e que deverão estar presentes no palmarés que terá sido anunciado na noite de ontem. Dois desses filmes são puramente ficcionais. O primeiro é o regresso do encenador e autor de teatro Jorge Silva Melo ao cinema, com uma pequena narrativa que designou como “A Felicidade”. A principal personagem é o surpreendente Fernando Lopes aqui como um comovedor homem de idade que está ser levado pelo seu filho ao hospital. Eles seguem de carro pela marginal solarenga e a vida está em plena vitalidade no passeio da praia. Pai e filho recordam alguns bons momentos do passado enquanto ouvem música clássica. Quando chegam ao hospital o filho deixa sair o pai para estacionar o carro. É aí que sentimos um momento de fim, que é tão sereno como triste. Só é pena uma voz off explicar aquilo que já percebemos.

O segundo filme é “Alpha”, uma surpreendente ficção científica realizada por Miguel Fonseca numa produção O Som e a Fúria. Dois andróides de aparência humana estão na fase final de instrução para serem entregues aos seus donos (dois portugueses a residir no Japão). Aprendem tarefas básicas assim como complexas (como tirar o dono da tristeza). A abordagem formal é muito contida e prova que a ficção científica não precisa de efeitos especiais para passar ideias.

O terceiro filme é já um cruzamento entre ficção e documentário. Trata-se do regresso de Miguel Clara Vasconcelos ao festival (onde venceu o grande prémio com “Documento Boxe”) com uma narrativa que aborda a violência doméstica “Instantes”. O filme olha as personagens com uma evidente entrega e mostra que um assunto pode ser criativamente explorado. Formalmente é também um filme rigoroso e permite lançar a ponte entre a “história” inventada e as vozes de mulheres “reais” e vítimas de violência. Tem também um plano excepcional quando olha o vazio da personagem que se quer suicidar na Ponte da Arrábida.

Podemos também destacar outras curtas de algum interesse, caso de “Caravaggio”, mais uma ficção “teatral” de José Maria Vaz da Silva (como uma fotografia muito bonita e uma recriação de época cuidada); “Corrente”, de Rodrigo Areias, uma narrativa experimental, filmada artesanalmente em 16mm nas minas da Panasqueira (a experimentação formal é algo bastante importante no contexto do cinema do futuro e as imagens são bem conseguidas); “Outside”, de Sérgio Cruz, um documentário filmado na China, na ante-câmara dos jogos Olímpicos (e que consegue adaptar o “exotismo” oriental); e, finalmente, “Cândido”, uma animação de Zepe (que, assim, volta ao festival), com uma técnica típica do autor e uma história bem estruturada.

Menos conseguidos são os outros títulos, como “Fevereiro”, de Francisco Botelho (que se perde no labirinto da sua narrativa, apesar de uma interessante fotografia) ou “Odisseia”, de Rita Palma, demasiado previsível e inconstante.

Não podemos deixar de assinalar, ainda, uma outra característica recorrente desta edição: a força dos filmes experimentais. Por um lado, com as exposições na Solar (casos de Martin Arnold e Tsai Ming Liang), que nos permitem recontextualizar estes filmes. E, por outro, com alguns filmes exibidos na competição internacional, casos de “Obersvando el Cielo” (já a segunda curta que usa a técnica do timelapse), “Bordate” ou “Odin’s Shield Maiden”. Este é um género em crescimento, embora, este ano, os filmes mais interessantes tenham sido, mesmo na Competição Internacional, filmes de ficção.

Hoje acaba o festival com a exibição dos filmes premiados e o Curtas despede-se já a pensar no próximo ano (com uma prometida exibição de excertos de um filme inédito de Manoel de Oliveira). O Curtas já deixa saudades…


Os Primeiros Dias da Festa

Nos primeiros dias de Vila do Conde, os dias começam a tornar-se longos: muitos filmes, sessões atrás das outras à procura das novidades e das surpresas. O cansaço até toma conta de nós, mas uma vontade cinéfila faz-nos manter acordados até noite dentro. A primeira reacção a estes visionamentos é a da descoberta de novos autores asiáticos e algumas curtas que vão enchendo as medidas. Ainda não houve um fascínio especial, mas ainda falta muito festival para o Curtas acabar.

A primeira grande descoberta deu-se na secção In Progress com a exibição, em ante-estreia nacional, da segunda longa-metragem de Miguel Gomes: «Aquele Querido Mês de Agosto». O realizador é uma espécie de filho do Curtas, já que várias das suas curtas-metragens foram exibidas e premiadas no festival. Esta segunda incursão no formato longo revela um autor capaz de se reinventar. Ao contrário de «A Cara Que Mereces», filme demasiado feito para dentro, «Aquele Querido Mês de Agosto» é luminoso, ao cruzar o documentário (a primeira parte do filme), com a ficção (a segunda e última parte). Este cruzamento de linguagens permite ao filme entrar no âmago da cultura popular portuguesa, um mundo de bandas de “música ligeira”. Uma revelação.

Na terça-feira, o festival conheceu a obra de dois realizadores asiáticos, cuja obra tem conhecido uma crescente divulgação nos circuitos internacionais. O primeiro deles faz parte da secção In Focus: Yu Lik-wai. Foi apresentada uma das suas longas-metragens, «All Tomorrow’s Parties». O filme é uma incursão pela ficção científica, num mundo pós-apocalíptico, onde sobram várias referências políticas e culturais. Há uma noção clara de situação limite, colocando as personagens num mundo sem referências morais. O choque é brutal. Na secção In Progress, foi possível ver uma longa-metragem, «Help Me Eros» de Lee Kang-Cheng, o actor fétiche do realizador Tsai Ming Liang. Na verdade, as referências ao seu mentor são mais do que explícitas, através da construção de uma narrativa lenta, acompanhando a degração física de um corretor de bolsa na falência e com tendências suicidas. Há um tempo diferente nestes filmes, e é essa diferença que é tão interessante acompanhar.

Também nestes últimos dias, já foi possível assistir a algumas sessões da competição internacional. O nível, para já, é médio: já foi possível ver algumas boas curtas, mas ainda não apareceu nenhum filme de grande nível. A ficção predomina e aí foi possível notar uma certa tendência para um realismo social, casos de «Cada Dia é Diferente», de Vsakdan Nivsakdan (uma história de uma mulher prestes a ter um bebé e onde diferentes personagens chocam uma com as outras, num interessante exercício multi-narrativo), «Alexandra», de Radu Jude (a história de um pai divorciado que discute com a mãe o poder parental sobre a filha, Alexandra, num filme tipicamente romeno), «Dennis», de Mads Matthesen (sobre um bodybuilder tímido que arrisca um encontro com uma rapariga, mas não consegue sair da asa da sua mãe). Outras duas ficções tentam reinventar os códigos: «La Copie de Coralie» (um musical sobre a história de um amor perdido de um dono de uma loja de fotocópias), e, finalmente, «The Adventure», do americano Mike Brune (uma típica curta indie onde um casal de americanos passeia por um parque natural e descobre um par de mimos).

De destacar, ainda, dois filmes opostos: «Nightstill», uma curta organizada numa sequência de timelapses, onde belíssimas imagens da neve nos oferecem o amanhecer e o por do sol. Claro que grande parte do interesse da curta está na técnica e nos próprios timelapse, e menos no interesse narrativo. Curioso é também o documentário «Como ser Sedutora», sobre um curso para as raparigas se tornarem “mulheres sexualmente melhores”. É um exercício sociológico que revela muito sobre a sociedade russa actual, mas que pedia um pouco mais de fôlego.

Já vimos algumas curtas portuguesas, mas deixemos a análise geral para Domingo, já depois de revelados os grandes premiados, no Sábado à noite. Aí podermos detalhar as últimas novidade do cinema português e perceber para onde o Curtas está ir. Para já, a festa continua…


a violência do poder
(texto publicado na edição de ontem do jornal «O Primeiro de Janeiro»)

Infelizmente, em Portugal pouco se vê cinema brasileiro. Na verdade, esse cinema é muito diverso e não se confunde com a ficção que as telenovelas da Globo exportam para o nosso país. Mesmo sem conhecer a verdadeiro dimensão da diversidade (só possível conhecer em alguns festivais de cinema, como é caso paradigmático do Festival Luso-Brasileiro), é possível reconhecer em alguns dos filmes estreado nos últimos anos, uma vitalidade do cinema brasileiro, sobretudo aquele que está ligado a uma certa tradição estética: o cruzamento de uma linguagem visual publicitária (porque muito trabalhada a nível da fotografia) com temas sociais sensíveis. Foi assim com o caso mais evidente dessa visibilidade – «Cidade de Deus», de Fernando Meirelles – e é assim com o filme que hoje estreia nas salas de cinema: «Tropa de Elite», do realizador José Padilha. Esta é a sua segunda longa-metragem (a primeira foi «Ônibus 174») e já é um caso de evidente sucesso, quer em termos de público brasileiro, quer em termos de festivais – foi o grande vencedor do Urso de Ouro no último festival de Berlim.

O filme é baseado num livro homónimo escrito por André Baptista, que narra a sua própria história (através da personagem de Nascimento): ele é um membro do BOPE, uma polícia de elite que actua em casos limite no interior das favelas brasileiras. Contudo, a sua vida está num impasse: ele vai ser pai e quer abandonar a linha da frente. Para isso, ele tem que encontrar o substituto ideal para o seu lugar. E esse substituto sairá da dupla de amigos Neto e Matias. Os dois são apenas polícias militares (a PM) e Matias ainda estuda para ser advogado. Contudo, ambos se inscrevem no curso para se tornarem membros do BOPE. Mas, Matias está demasiado envolvido com Maria, uma rapariga rica com preocupações sociais e que trabalha numa ONG no interior da favela. Maria não sabe que Matias pertence à polícia e isso levará a muitas complicações com os traficantes da favela. Nos meandros desta história, Nascimento terá que escolher o seu sucessor. Só quem sobreviver ao terror da BOPE poderá aceder ao estatuto.

É curioso que, na primeira parte de «Tropa de Elite», Matias, ainda na universidade, discute numa aula de sociologia o livro de Michel Foucault, «Vigiar e Punir», um texto que discute a forma como o poder se legitima através dos seus discursos e práticas sobre o corpo (a microfísica do poder). E, na verdade, o filme é sobre isso: a forma como o poder consegue controlar os seus desvios e a forma como uma sociedade se adapta ao contexto que ela própria cria. Neste caso, é a favela com um equilíbrio muito instável de poderes e de formas de violência. Não há dúvida, por isso, que este filme só podia ser assim, muito violento, capaz de impor uma ética da repressão que nos coloca contra a parede. É por isso que «Tropa de Elite» é um filme instável, sempre na corda bamba. Mas, parece-nos que José Padilha e os seus co-argumentistas fazem por isso: não há moral, o filme simplesmente apresenta uma história e coloca-a em frente aos nossos olhos. É certo que a voz-off de Nascimento (uma estratégia comum a alguns filmes brasileiros) nos obriga a uma identificação com a sua instabilidade. Aliás, tanto ele como Matias são apresentados como pessoas afáveis, capazes de criar empatia com o público. Contudo, o próprio filme se encarrega de desmontar essa identificação com sequências brutais onde ambos são protagonistas.

O filme despoletou muita discussão no Brasil e outra coisa não seria de esperar: todo o microcosmos da favela é explosivo e parece que qualquer tentativa de explicar se enreda num labirinto de cumplicidades e de corrupção entre polícia e traficantes de droga. A complexidade da estrutura de sociedade é, por isso, a imagem de marca. E se, por um lado, o filme justifica a criação de uma tropa de elite brutal (a BOPE), ele também denuncia as práticas de violência dessa polícia (para quem a morte é normal). É difícil, nesse sentido, fazer um juízo claro. Contudo, o filme é construído visualmente de uma forma muito semelhante com «Cidade de Deus» (os filmes parecem irmãos, olhando um para o outro de cada lado da barricada): uma imagem forte, com uma câmara descontrolada, sempre em cima das personagens e da acção. Nesse sentido, ele não deixa respirar, mas também essa é a sua função: colocar-nos entre a espada, obrigando-nos a olhar para a violência e a encarar a morte.

«Tropa de Elite». Um filme de José Padilha, com Wagner Moura, André Ramiro, Caio Junqueira e Maria Ribeiro. Brasil, 2007, Cores, 117 min
Site Oficial: http://www.tropadeeliteofilme.com.br/